João Moreira, historiador, defendeu em 7 de Abril deste ano, no ISCTE, a sua tese de doutoramento, intitulada Intelectuais portugueses e a ideia de esquerda num tempo de transição (1968-1986). Os casos de António José Saraiva, Eduardo Prado Coelho e João Martins Pereira.

 

A escolha destes três intelectuais foi inspirada num debate, motivado pela publicação em 1983 da obra de JMP No reino dos falsos avestruzes, incluído na revista Plural “Em busca da Esquerda” (PDF aqui), como João Moreira refere na “Introdução” (PDF aqui).


"Em 1983, a revista Plural – publicação mensal, dirigida por Francisco Salgado Zenha, que procurava ser um «polo congregador e dinamizador dos conhecimentos e das capacidades das áreas da esquerda democrática» – expôs um debate que envolveu, entre outros, António José Saraiva, Eduardo Prado Coelho e João Martins Pereira. À discussão a revista deu o título «Em Busca da Esquerda". 

Reunimos aqui os textos dos intelectuais que intervieram no debate: de António José Saraiva, Eduardo Lourenço e Miguel Serras Pereira (Plural, nº1, 1983. PDF aqui), de Eduardo Prado Coelho (Revista do Expresso, Abr. 1983; Plural, nº 6, 1984) e a resposta de JMP (Plural, nº 4, 1984).

 

E  para que se possa ter uma visão global da tese, incluímos o Índice (PDF aqui) e destacamos, entre muitos outros, alguns parágrafos que se referem a JMP (Capítulo final “4.5  A esquerda entre o ser e o dever ser”):


"[...] a permanência de Martins Pereira numa cultura política marcadamente à esquerda e a sua fidelidade ao projeto de transformação social permite associá-lo à categoria de intelectual resistente, avançada por Keucheyan. Ao mesmo tempo, se a tese de Camus, segundo a qual o intelectual é «o homem que resiste às modas do tempo», se julgar certa, Martins Pereira pode muito bem ser entendido como um dos intelectuais por excelência da segunda metade do século XX português.

 

Entrevendo no futuro um mundo tendencialmente melhor, socialmente mais igual, Martins Pereira entendia a esquerda como a antecipação desse «futuro» por alcançar ou realizar. Mais do que isso, por conceber a esquerda como o futuro, Martins Pereira compreendia o seu próprio empenhamento ideológico num conjunto muito maior que se prolongaria eternamente: 

 

gosto de me sentir inserido numa corrente que só o é por ter a continuidade assegurada, por me saber um grão numa construção que prosseguirá sem limite de tempo. Não será um pouco isto que diferencia esquerda e direita? Não serão justamente de direita aqueles que buscam a sua força, ou as suas razões, no passado «já construído», no que «sempre foi», só aceitando as mudanças necessárias para que, como na célebre fórmula, «tudo fique na mesma»?.

 

A compreensão de que a esquerda, ao contrário da direita, se prolonga e inscreve no futuro, num tempo vindouro, é igualmente avançada por Steven Lukes que identifica naquela cultura política uma «coerência ao longo do tempo», vendo-se a si mesma como «parte de uma história de progresso real ou pelo menos potencial: uma narrativa geral de conquistas e retrocessos […]".

No espólio existe uma carta de António José Saraiva (PDF aqui) para JMP (Paris, 7 Fev. 1970) sobre O Tempo e o Modo, identificada como “Pessoal".


Tem junto o rascunho da resposta de JMP (PDF aqui) (15 Mar. 1970), que não chegou ao destino por ter sido apreendida pela PIDE. A carta enviada (PDF aqui) encontra-se no processo de António José Saraiva, como refere João Moreira na sua tese (p. 299, Cap. 4.5).

Também se encontra no espólio a Revista comemorativa do 25 de Abril, Editora do Estado-Maior General das Forças Armadas, 1980, p. 29-60,  que inclui uma “Mesa redonda: o passado, o presente e o futuro do 25 de Abril”, com a participação destes três intelectuais,  João Martins Pereira, António José Saraiva e Eduardo Prado Coelho, e de outros: Fernando Piteira Santos, Manuel de Lucena e José Miguel Júdice. (PDF aqui)